Sempre que vou ao Rio compro um disco de bossa nova. Pego um e outro,
mexo aqui, acolá, mas é inevitável. Levo o de bossa. Desta vez não foi diferente.
Aeroporto Santos Dumont e duas horas para gastar. Caminhei de um lado a outro (o que não é muito) várias vezes, sem contar ir ao banheiro calmamente, olhando as fotos da parede pelo caminho. Depois, um cafezinho em homenagem ao Francisco. Aí me parei bem ali no meio, sentada, tentando ler, mas querendo olhar a rua ali na minha frente. O sol, o centro, a cidade, os carros subindo e descendo. Não me canso de imaginar como seria o Rio antigamente. Como andavam as pessoas, como tinham mais tempo, os relógios não digitais, as luzes acendendo enquanto ainda caminhavam.
A vontade de vir, o medo de ficar e o telefone toca, falando que chove sem
parar. Minha voz responde mal humorada porque tiraram minha atenção da paisagem.
- Só para saber se cheguei bem?
- Alguém aqui chega mal?!
Isso, me liga depois. Depois das luzes, do Corcovado, da brisa, da saudade, da bossa.
Depois do Rio.
Junho/2000
De repente, os peitos crescem e seus caminhos agora visíveis e densos estão prontos para desaguar. Mesmo que distante, a criança chora e os peitos derramam. A mãe corre e o coloca a mamar. Aos poucos o peito alivia e o filho sacia-se, de alimento e de amor. A mãe também está satisfeita. O primeiro peito está vazio, o filho sorri, ela o segura e vai mudando a posição para colocá-lo no outro peito que há muito já molhava sua roupa. Pouco importa. Há momento melhor do que aquele? O filho nutrindo-se da mãe, do alimento, do carinho, do tempo. Ela pode estar cansada, com sono, mas não há prazer maior, momento maior de plenitude. Passa-se então mais de meia hora, ele apenas terminou de mamar. Olha para a mãe, fecha os olhos e ela o põe em pé junto do seu corpo. Mais alguns minutos e então poderá colocá-lo no berço para dormir novamente. Depois virá a troca de fraldas e uma hora depois o ciclo se repetirá. A mãe exausta pouco terá feito, além de tomar água, no escasso intervalo entre uma mamada e outra, mas não importa. O filho está ali, tranquilo, alimentado por ela, cuidado por ela, dependente dela. Vida da vida dela. O tempo passa, o filho cresce, o ciclo muda, o cansaço diminui, a saudade fica.
2011
Ando pelo jardim da casa a arrumar uma flor aqui, tirar uma erva daninha
ali. Sol de outono, arrumo a mochila do meu filho, sinto o cheiro do feijão na
panela, ainda tenho tempo para um mate. Olho a casa que é a dos sonhos, o
cachorro já acostumado. Rua, número e código de endereçamento postal.
Endereço fixo sem previsão de mudanças. Será a casa do “para sempre”?
Assusto-me com as coisas mais definitivas. Casa que não é pra mudar, trabalho que não vai trocar, filhos que irão crescer. Pais que irão morrer, nós que iremos
envelhecer.
Nossa história começa na Santa Casa de Bagé, uma pequena cidade, fronteiriça com o Uruguai. Num inverno muito frio, em 1970, no dia de São Pedro e de São Paulo, eu cheguei para ser a primeira e única filha de minha mãe e a quinta de meu pai. Minha mãe, já com quase 44 anos, foi submetida a uma cesariana. No dia seguinte, enquanto se recuperava, internou no quarto ao lado sua ex-aluna Maria de Lourdes que também deu à luz a uma menina. Então, Dona Licinha pediu à sua nora para levar a neta no quarto ao lado para que Ruth, minha mãe, a conhecesse.
Minha mãe sempre contava sobre este momento, relatando nossas diferentes características: eu muito gordinha, com muito cabelo, bem escuro e bem crespo. Ela mais miúda, clarinha, bem loura, com cabelo escasso. Sempre contava também que a mãe de Patrícia havia sido sua aluna, que era uma menina linda e que estava sempre com um avental branco bem engomado e um laço de fita. Na primeira série do ensino fundamental, eu e Patrícia fomos colegas. Daí até a quarta série. Além daquelas diferenças físicas, eu era muito tímida e Patrícia falante, tomava iniciativas, mostrava-se independente. Foi assim que nós crescemos e junto conosco a amizade. Aniversário de uma, aniversário de outra. Patrícia me convidava para almoçar, para dormir em sua casa, brincávamos muito. Até me pendurar no coqueiro em frente à sua casa eu me pendurei e aquilo para mim era uma grande aventura. Um dia ela ganhou uma irmãzinha e todas nós adorávamos vê-la. Seu irmão mais velho foi meu par de debutante. Trocamos de escola e nos encontramos de novo quando, mais adiante, eu também troquei. A independência de Patrícia era algo que me encantava e eu continuava tímida, mas sempre nos entendíamos. Ela gostava das minhas redações, comentava que eu escrevia bem, e eu admirava seus desenhos e outros dons para a arte. Lembro um dia, na saída da missa na Catedral, nossas mães comentando a passagem do tempo e que já que não mais eram professora e aluna, mas amigas. Comentaram também sobre nós e que quem sabe eu continuaria a escrever e Patrícia ilustraria meus escritos. Patrícia era mesmo mais independente, mais aventureira e, quando entrei para a faculdade, ela foi morar nos EUA e acabou estudando por lá. Mantivemos uma correspondência frequente. – Sim, correspondência! Em 1988 ainda escrevíamos muitas cartas e nem imaginávamos que um dia não faríamos mais isso. Os anos passaram, quando Pata vinha ao Brasil, tentávamos nos ver. Houve um período de menos cartas, alguns anos sem nos vermos até que no casamento de uma colega encontro seu irmão e, ao perguntar por ela, ele me diz que está indo para Montreal.
- Como assim? Me explica melhor?
- Indo, já tá lá.
E eu, coincidentemente, iria nos próximos meses, para passar um mês. Passamos o Natal juntas, na gelada Montreal. E nos encontramos muitas vezes mais nos três anos em que frequentei a cidade, ou melhor, morei On and Off como ela me dizia. Os nossos 29 anos foram comemorados em conjunto no calor canadense. Tomamos mates por lá, conheci seus amigos e segui minha vida aqui no Brasil. Um dia liguei avisando uma novidade muito importante. Eu estava grávida, meu menino nasceria também em junho. Pata veio conhecê-lo e me dizer que também teria um menino, em dezembro. Mas a série de coincidências que nos une não terminaria aí, pois ainda teríamos, com o mesmo intervalo de tempo, nossas meninas, ambas nascidas em abril. Não preciso dizer que seus filhos eram muito louros e os meus muito morenos. Se ela vinha ao Brasil, lá ia eu com meus pequenos, ou ela vinha à minha casa. Quando perdi minha mãe e, antes, no processo de perda, Patrícia me disse coisas tão importantes que até hoje me fazem pensar. As crises da idade, a política, o Brasil, muita coisa nos une, mas este ano temos falado ainda com mais frequência. Nossos filhos mais velhos irão para a faculdade. Eles guardam uma amizade distante, uma referência, e isso importa para nós. Ontem fui eu quem ligou, estou pensando em escrever um livro.
Os meninos ingressaram na faculdade, as meninas pensam sobre o que fazer, nos encontramos rapidamente no último verão para combinarmos nossa viagem dentro de seis meses. Vamos comemorar nosso meio século de existência e de amizade durante o Caminho de Santiago de Compostela. Iríamos. A pandemia do COVID-19 alterou nosso plano de uma viagem intensa e desconectada sob o sol espanhol. Foi como uma tempestade de areia, fazendo virar o rosto para outra direção, fechar os olhos e esperar passar. Acabamos tendo que dar as costas à nossa viagem e virar o rosto para nossa própria alma, pensando em tudo e em todos, mas quando tudo isso passar um longo abraço e um novo caminho nos espera.
Simone Karam, junho de 2020.
Era uma vez uma menina que morava lá na Querência. Gostava muito, muito,
de brincar e de cuidar dos animais. Ela tinha uma irmã e três irmãos, bem mais velhos, e desejava muito ter um irmão mais novo. Os pais explicavam o motivo de não ter, ela entendia, mas guardava o desejo. Um dia, seu irmão do meio casou e teve um menino.
Sem saber, ele deu à irmã mais nova aquele presente que ela tanto desejava. Com sete anos de diferença do sobrinho, ela se sentia menos tia e mais irmã. Tinha sua foto na mesinha de cabeceira. Com ele se aventurou pela Querência como imaginava. O carregou de bicicleta, pescou, fizeram muitos pic-nics, agora já acompanhados do mais novo sobrinho, e até um mapa do tesouro fizeram. Quando as férias terminavam e ele voltava para sua casa, ela chorava e torcia para o verão voltar. O tempo passou, o
menino escrevia cartas, mandava fotos. Ela cresceu, não morava mais na Querência, mas no ano novo sempre se encontravam. Ela levava seu namorado e o menino crescido parecia ficar amigo dele também. Quando casaram, os sobrinhos lá estavam, a mais nova como dama de honra. E o tempo corre, aquele menino virou um homem, amigo e compreensivo, que agora já brincava, ou melhor, cuidava do primo e da prima.
O tempo seguiu, meu sobrinho/irmão Henrique encontrou Gabriela, a Gabi, aquela menina lourinha, muito decidida, para quem um dia dei aula na faculdade. E agora que todos na família estão crescidos, a Gabi e o Henrique nos deram o Théo. De tia, passei a tia-avó e, para mim e Bernardo, meu namorado e amigão do meu sobrinho mais velho, veio o Théo como presente. Para encher os domingos, para curtir novamente festas de criança, para voltar à Querência, para ser cuidado pelos primos Camila e Alexandre que, talvez, se sintam um pouco tios. Para renovar os dias de seu centenário
bisavô que tanto o aguardou. E, ainda, para ser paciente de um querido aluno que sempre desejou ser pediatra. Uma nova temporada na Querência pode recomeçar com Théo, já tenho até a toalha para o pic-nic.
2018
Dia desses cheguei mais cedo em casa. Conforme o combinado, meu marido pegaria meu filho na escola e a pequena ficaria na avó até mais tarde. Cheguei cedo mesmo, a casa vazia, o sol da tarde que deixei entrar pela janela, não tive forças pra mais nada a não ser cair no sofá. Então desisti de preparar aula, da academia, de qualquer coisa que me exigisse esforço físico ou mental e liguei a TV. Que bela surpresa quando vejo que está começando A Feiticeira, com Elizabeth Montgomery. Quem tem mais de 30 anos sabe muito bem do que eu estou falando e até já lembrou da Thabata, aquela loirinha linda filha da feiticeira Samantha.
Eis que o diálogo é entre a protagonista e sua sogra, a sra. Stevens. Tratavam da ida de Thabata para o jardim de infância. Dizia a avó que seria muito bom para seu desenvolvimento.
- No jardim de infância, querida, as crianças brincam, pintam, desenham com giz de cera, modelam massas.....
Tudo igual... pensei eu. Gostei mais ainda da feiticeira, pois ela e o marido não desejavam que a filha ingressasse cedo no jardim. Jardins de infância, massas de modelar e opiniões sobre os filhos alheios são realmente iguais. As professoras, felizmente, mudaram um pouco. A do seriado lembrou as histórias que meus irmãos contavam, inclusive de quando minha irmã não pode ser borboleta e sim sapo, pois havia se comportado mal. Igualzinho ao episódio. Não fosse isso suficiente para eu me divertir sozinha, quando a sra. Stevens diz que a neta precisava realmente ir para a escola, pois tinha muito talento, muitas aptidões, um potencial enorme a ser desenvolvido, era quase um prodígio e :
- É claro, puxou aos Stevens. Que são muito inteligentes, perspicazes.... e mais uma dúzia de adjetivos que, em sua quase totalidade, atribuíam-se aos super poderes herdados da mãe feiticeira.
- Você já ouviu alguma conversa parecida, não?
2006
Ver filmes com meus filhos nunca foi sacrifício e sim, prazer.
Ansiosa, minha filha esperava a nova versão de Cinderela e, assim que o domingo chegou, combinamos com uma de suas amigas. Comprei ingressos antecipadamente e lá fomos nós. Na fila da pipoca, encontro uma colega de profissão: salto alto, carregando elegantemente a bolsa e que sorridente me indaga o que faço naquela fila enorme. Também sorridente, respondo o óbvio, aguardo a pipoca que completará o prazer de nossa sessão. Ela me diz que sua filha já entrou com uma amiga e que ela irá passear pelo shopping, tomar um café, enfim, aquilo tudo que fazemos neste tipo de ambiente repetidamente sem ter a correta noção de ser noite ou dia, vendo e revendo pessoas. Já com outro tom ela ri quando confirmo que nosso filme é Cinderela. Diz com orgulho que sua filha foi assistir a outro, o qual não é para sua idade, mas entrou. Nos despedimos. A pipoca chegou e corremos para não perder o início.
O filme tem uma fotografia linda, é bastante fiel à versão original (eu disse bastante, não completamente) e faz um movimento de trazer o diálogo para a contemporaneidade.
O príncipe é bonito, sim. Cinderela também, mas muito mais por sua personalidade. Passaram-se mais de 2h e nem sentimos. Minha filha e sua amiga me brindaram com comentários fantásticos que evidenciaram sua pureza e ao mesmo tempo seu amadurecimento. Percebe que o príncipe chora ao ver o pai morrendo e sobre a madrasta que diz não poder viver sem marido e comenta comigo: como uma mulher não pode viver sem um marido, não é, mãe? E eu pensei – nem preciso falar em príncipe encantado. Pensei também no quanto já fui ao cinema sozinha nos lugares onde morei e de como adorava fazer isso em Porto Alegre, após um longo dia de trabalho, naquele cinema perto da minha casa, mas agora tenho boa companhia. Passear no shopping? De vez em quando, mas shopping para mim é mais um utilitário, é aquele tipo de local que é igual em todos os lugares do mundo e onde você pode encontrar coisas que precisa, pode se esconder da chuva ou, melhor, ir a um confortável cinema. Poderia ter dito tudo isso à minha colega, mas estou feliz em meus trajes despojados e de tênis. Estou feliz com a alegria de minha filha e, principalmente, com suas percepções, com seus quase 11 anos, nem mais, nem menos. O filme termina, elas puxam os aplausos e brilha o nome do diretor: Keneth Branagh. Para que comentar mais, se um grande ator e diretor vai lá no fundo do baú e faz nova versão de um clássico, explorando aquilo com que nos debatemos a vida inteira, o amor, e ainda o faz sutilmente diferente, sem menosprezar a inteligência das crianças e pré-adolescentes, é mesmo porque cinema é muito bom e quando bom não há divisão entre adultos e crianças. Entre pais e filhos.
E falando em viver feliz para sempre, este foi um momento e tanto!
Pelotas 29/04/2015
Após o exaustivo primeiro ano de residência médica, enfim, férias! A mala já estava pronta há quase uma semana, o presente comprado há um mês. Montreal me aguardava, para encontrar Bernardo, meu namorado, e Patrícia, amiga de longa data, agora lá residindo. Além disso, afora Uruguai e Argentina que, para os gaúchos da fronteira, são apenas vizinhos, seria minha primeira viagem ao exterior. O hemisfério norte me aguardava com muito frio, mas também com o Natal, a neve e as luzes que se tornariam inesquecíveis. Para isso, eu havia providenciado tudo sozinha: visto, passaporte, passagem, tudo certo. – Pai e mãe, não se preocupem, daqui a um mês já estou de volta!
Ao chegar em Porto Alegre meu amado primo Renatinho e sua Maira foram me buscar e levar ao aeroporto. Isto tornou minha viagem ainda mais confortável e alegre. Colocamos o assunto em dia e então eles se foram, seu primeiro filho podia chegar a qualquer momento e, aliás, ele foi a grata surpresa que tive no retorno. Porto Alegre - São Paulo, nada demais, troca de avião e então São Paulo - Toronto e de lá mais uma troca para Montreal. Quem vai para qualquer outra cidade em empresa canadense, irá primeiro para Toronto. Assim, desembarquei e fui caminhando, conforme as orientações descritas. Ao meu lado seguia um casal de uns 70 anos. Ambos meio louros, de óculos, mais ou menos no mesmo passo. Dei uma olhada, eles também. O trajeto era longo. Eles caminhavam, eu caminhava, e o caminho nos levava. Até que ele arriscou:
- Acho que estamos indo para o mesmo lugar.
- Acho que sim, respondi com o sorriso da proximidade que une os que falam a mesma língua.
Quando ele falou, percebi o sotaque e aí quem se arriscou fui eu.
- São de Porto Alegre ou não?
- Não! De uma cidade pequena. Não sei se conhece, Bagé.
- Ah! Não moro mais lá, mas sou de Bagé.
Foi a vez deles sorrirem. Então ele completa:
- Mas moramos “para fora”, quem vai para Aceguá.
- Eu também moro, quer dizer, morei, mas meus pais ainda moram “quem vai pra Aceguá”.
Afinal, onde fica a casa de vocês?
- Colônia Nova!
- Nossa, claro que sei. Morei na Granja Querência.
- Sim, sabemos onde é. Passamos por ali sempre. Mundo pequeno! Primeira vez aqui? Vai gostar!
- E vocês?
- Terceira, mas esta é especial, pois vamos conhecer a netinha.
Chegamos, finalmente, ao ponto de separação. Naquele aeroporto enorme, que ainda me era desconhecido, o mundo realmente ficou pequeno, ficou amigo, tinha sotaque, cara e lugar.
Nos despedimos, eles seguiram para Vancouver e eu para La belle Province*.
*codinome da província do Quebéc
Sinto-me triste. Parecia tudo terminado. Minha mãe estava bem e alegre como
antes. Até descobrir-se que o câncer voltou. Nova cirurgia, boa recuperação, novos exames, enquanto se aguardava a decisão sobre o tipo de tratamento a ser feito.
Manter a vida normalmente enquanto o tal tratamento não vem parece fácil, ou, pelo menos, obrigatório, mas não é. Em dias como hoje me sinto cansada. Tento relativizar, penso nos meus pacientes, a maioria ainda bem jovens e acumulando tragédias, a física e a social. Todavia, acho que tenho o direito de me sentir triste, de chorar. Minha mãe adoeceu há um ano e em todo esse tempo não consegui chorar. Não queria
chorar na sua frente, nem na frente do meu pai, e nem das minhas crianças. Não
queria que percebessem a doença em sua profundidade e eu não queria deixar de
acompanhá-los. Precisava cuidar de meu pai que já havia perdido a mãe dos meus
irmãos para a mesma doença. Tinha que ser eu a dar as notícias à família e eu a
discutir com meus colegas de profissão o que seria feito. E também tinha meu
trabalho. Precisava tentar ensinar aos meus alunos. E havia quem me julgasse e eu só me sentia triste e não podia chorar.
Julho/2006
Era um dia frio, sol forte, inverno recém chegado. Eu pedalava com intensidade
e virei a curva do mato rapidamente, então “embalei” para a subida a seguir. Naquele momento senti força e leveza, liberdade e de repente eu não era mais aquela menina de rabo de cavalo, com máscara de Bat Girl ou Robin (tudo o que a infância permite).
Ou era? Fiz 50 anos! Bem lá no fundo, talvez ainda seja aquela menina. Quando ando de bicicleta sorrio pensando naquele tempo. Eu tinha uma máscara vermelha, para combinar com a minha Caloi, e uma preta. Quando estava acompanhada de minhas amigas, aí éramos as Panteras, descíamos correndo pela estrada até a porteira. Lá nos
separávamos após traçar um plano - entrávamos no bosque, perseguíamos inimigos e então chegávamos ao destino final: bolo ou pipoca. Às vezes eu era repórter, claro que o gravador era enorme, como os da época, e ninguém escapava do meu microfone. O meu pai, calado como ele só, o peão, os amigos dos irmãos. Às vezes eu era Emília, às
vezes Narizinho. Quando o pó de pir-lim-pim-pim fazia efeito, a jornada imaginária
durava ainda mais tempo. E como eu não podia esperar, já dizia minha mãe, tinha que fazer logo. Os acabamentos das fantasias não eram muito bons, mas pouco interessava. Das festas juninas, já falei certa vez. Depois vieram outras, para dançar.
Veio o tempo de ir embora, veio o tempo de ser igual, mas a infância, ah, essa foi
única!
Meu irmão Fernando sempre tinha uma ou duas poses de seu filme 24 ou 36
reservadas para registrar o “Começo” da minha Vida”. E aqui, lembro propositadamente o filme, já que é a fase da vida que eu cuido e que desejaria, para
todas as crianças, fosse parecida com a minha.
Junho 2020
Meu pai sempre diz uma frase de modo firme, sem pestanejar: “ estragou a sua vida”. Sempre o ouvi falar isso, comentando sobre pessoas que, na sua opinião, teriam feito escolhas errôneas. Teriam deixado de aproveitar a sorte ou o amor que tiveram. Minha mãe costumava
conversar, explicar, mesmo quando eu dizia que havia entendido, pois ela sabia que não. Meu pai era “curto e grosso”: além da dita frase para exemplificar o que não queria para nenhum de nós, tinha
outra bem direta para fazermos o que deveríamos, desde tomar um remédio a estudar: “ é pro teu bem”.
Dia desses, minha filha relutava em aceitar uma recomendação e não é que me pego a soltar tal frase? E daí foram muitas vezes, até que outro dia tive que rir depois de pronunciá-la e então
explicar aos meus filhos o motivo do riso. Agora até eles já sabem e muitas vezes se antecipam, dizendo:
- Já sabemos, é pro nosso bem.
Essas frases me marcaram, me ajudaram, mas só agora posso dar a elas o peso que realmente carregavam. Precisei ser mãe para não dizê-las em vão e, sendo assim, a cada dia tento fazer minha
parte, para o “seu bem “.
2013